Você
já imaginou uma boca de vulcão extinto ora emergindo, ora
submergindo, ao sabor das marés? Pequenos oásis solitários
de areia e pedra, a 266 km. De distância mar adentro e
agitado, na imensidão do Oceano Atlântico? Mais precisamente,
depois de fazer uma viagem inacreditável, partindo da costa do
Rio Grande do Norte, se revelando ao sabor das ondas?
Pois
este lugar existe, conforme descreveu o jornalista Carlos
Morales, editor da Revista Ícaro Brasil. O lugar integra
a seleta lista da Unesco, como um patrimônio natural da
humanidade. Chama-se Atol das Rocas, representa um dos mais
exuberantes e lindos santuários ecológicos do planeta, e foi
documentado pelo fotografo de natureza, Luciano Candisani.
Trata-se
de um conjunto de pequenas ilhas transformadas, desde 1979, na
primeira reserva marinha brasileira, praticamente desconhecido não
apenas dos brasileiros, mas dos terráqueos devido ao seu
isolamento geográfico e a pujança de sua natureza.
Mais
que isso, a rigorosa legislação ambiental que protege o Atol
das Rocas não permite, graças a Deus, o turismo ali. A
fragilidade do seu ecossistema também não, tal como Candisani
imortalizou com suas fotos deslumbrantes. Em uma de suas
expedições científicas foram no total 40 dias convivendo não
apenas com a beleza das 150 mil aves voando sobre sua cabeça,
mas, com a falta de sombra e água fresca, sem contar com
verdadeiros exércitos de formigas e caranguejos. Como ele
testemunhou: “Apesar da paisagem deslumbrante, digna dos
mais famosos paraísos tropicais, a rotina no atol pouco lembra
os confortos de uma ilha turística. Rocas é um daqueles
raros locais do planeta onde a vida ainda está regida pelas
leis da natureza. Ali, o mar, os ventos e os bichos ficam
no controle de tudo. Ao ser humano resta viver em harmonia
com as imposições do meio ambiente”.
AO SABOR DAS MARÉS
No horizonte, a mancha é comprida e baixa. Sem recortes, nem relêvo.
Nem parecem terras à vista. A forma lembra antes um navio cargueiro, passando ao largo. Mas é um grande anel calcário sobre o pico de uma montanha vulcânica submarina - o único atol do Oceano Atlântico Sul - com 500 metros de raio; duas ilhas de areia e rala vegetação; uma laguna no meio e milhares de aves em revoada, no chão, nas pedras, sobre as ondas.
O olhar dos navegantes só reconhece o Atol das Rocas quando ele já está muito próximo.
Muitas vezes próximo demais: terror das antigas rotas de caravelas, os recifes inesperadamente rasos ainda hoje arrombam cascos e fazem náufragos.
Apesar da precisão das cartas marítimas, apesar do farol automático e de uma história fartamente conhecida de barcos afundados.
Sem grandes rochedos emersos, o Atol das Rocas é difícil de se avistar ao longe, o que já provocou diversos naufrágios.
Para quem passa atento e ileso pelas águas agitadas do entorno e desembarca em terra como visitante, o Atol é um paraíso.
Na vegetação rasteira, as aves residentes disputam espaço para fazer ninhos e criar os filhotes, enquanto as migratórias pousam para descansar, em meio às longas jornadas intercontinentais.
Nas areias brancas, as marés traçam grafismos e apagam as poucas pegadas, deixando a cada um a impressão de ser o primeiro. Debaixo d'água, a quantidade de peixes impressiona pescadores e aventureiros, literalmente, há séculos. A forma de anel, a proteção dos recifes, a presença de algas e colônias de corais, alimento e abrigo no meio do oceano, favorecem o estabelecimento de inúmeras espécies vegetais e animais.
À raridade das águas rasas em meio aos abismos atlânticos acrescenta-se ainda a passagem da corrente Sul Equatorial, que orienta os cardumes provenientes das costas africanas para o Golfo do México e para o litoral nordestino.
É por tudo isso que o Atol das Rocas foi declarado Reserva Biológica Marinha, em 5 de junho de 1979, pelo decreto-lei 83.549, e reconhecido como Sítio do Patrimônio Natural Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco), em 13 de dezembro de 2001.
As reservas biológicas protegem sobretudo a fauna e são teoricamente fechadas ao turismo e a qualquer tipo de exploração econômica. Teoricamente porque é muito difícil evitar a presença de pesqueiros, navios e veleiros nos 36 mil hectares de área protegida, incluindo as terras emersas e as formações calcárias submarinas.
Sobretudo quando isso tudo está localizado a cerca de 145 milhas náuticas (270 km) da costa mais próxima - a do Rio Grande do Norte - e a 90 milhas náuticas (ou 166,5 km) de Fernando de Noronha, a única ilha habitada da região.
Pela legislação brasileira em vigor, para descer no Atol ou mergulhar em suas águas é preciso ter uma autorização do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis, IBAMA. Até 1993, essa exigência era simplesmente ignorada pela grande maioria dos navegantes e curiosos, pois a fiscalização era nula.
Em 93, o IBAMA fez um esforço para construir um posto permanente e manter um revezamento de equipes voluntárias. Mesmo assim, nem sempre é possível conter os invasores.
Um anel de recifes protege a laguna interior, favorecendo o estabelecimento de várias espécies marinhas.
As expedições dos veleiros Iemanjá e Don Silvano, de onde saíram as fotos destas páginas, percorreram os cansativos caminhos burocráticos. Autorização na bagagem, o Iemanjá deixou o Arquipélago de Fernando de Noronha só na vela, num entardecer de sol quente, em pleno maio.
À noite, as nuvens encobriram as estrelas e o dia seguinte também amanheceu nublado. Numa grande travessia, não tem grande importância passar um dia ou dois com o céu encoberto por nuvens e sem condições para observações astronômicas.
Mas numa travessia de 90 milhas náuticas, a falta de condições para observar os astros poderia significar passar ao largo do Atol. Baseados somente na navegação estimada, os tripulantes do Iemanjá não tinham idéia precisa de sua localização.
A luz do farol, intensamente procurada, não aparecia. A faixa de terra do Atol tem menos de 3 metros de altura acima do nível do mar e mesmo as ruínas do farol velho e a torre de 18 metros do novo, durante o dia, só são visíveis a 10 milhas (18,5 km) de distância.
Com boa parte da tripulação constituída por marinheiros de primeira viagem, não era desprezível a probabilidade de "pequenos enganos" dos timoneiros a bordo.
Mas trinta e seis horas de ventos fracos e mar calmo depois de deixar Noronha, o veleiro fundeava no Atol das Rocas.
Quanto menor a distância entre o Iemanjá e Rocas, maior o número de aves planando sobre as duas ilhas: a do Farol e a do Cemitério.
O vento hesitante da travessia soprou em condições perfeitas para a ancoragem.
O comandante fundeou o veleiro no lado oeste do Atol, junto à Ilha do Farol, onde as pedras formam um pequeno quebra-mar, não indicado nas cartas náuticas.
O desembarque foi tranqüilo, graças, de novo, à falta de vento e ao mar calmo.
O cenário compensou a paciência. As cores do mar, na lagoa interna e nas águas do entorno, de um turquesa indescritível, roubam a cena.
A maré baixa deixa piscinas transparentes no interior do Atol, com paredes de vermetos e corais e pedra e peixes de todas as cores e tamanhos: imensos aquários que se renovam a cada maré, a cada mergulho, a cada passo.
Mesmo os grande tubarões e arraias ficam retidos nas armadilhas das marés, junto com os pequenos sargentos e frades exuberantes.
Embora a exploração terrestre exercesse intensa atração sobre os visitantes, a hora do mergulho chegou com o sol a pino.
Quatro dos tripulantes do Iemanjá submergiram, dois a dois, nas lagoas internas, formadas pela maré baixa. Eram gigantescos aquários, povoados por cardumes de peixes amarelos, azuis, vermelhos e enormes arraias-manteiga, descansando no fundo, cobertas com areia, abrindo e fechando largas guelras.
Os quatro desceram, em seguida, no mar de fora, para o mergulho autônomo nas proximidades do barco.
As condições não eram tão boas quanto o esperado, no outono, as chuvas são
mais freqüentes e perturbam a transparência das águas, dando-lhes um aspecto leitoso.
Mesmo assim, os mergulhadores desceram até estruturas do fundo, cheias de fendas, onde brincam de esconder peixes e lagostas.
Âncoras presas nessas fendas, com cabos cortados, indicavam a pressa de alguns barcos, em deixar a vizinhança dos recifes, para buscar a segurança do alto mar.
De volta ao Iemanjá, após o mergulho, os visitantes assistem à transformação da paisagem: sobe a maré, a população das lagoas se liberta, desaparece metade das areias, aumenta a força da arrebentação.
Chega a noite, mas não o silêncio. O grasnar agudo e caótico das aves não acaba com o final do dia. Vara a madrugada e amanhece sem mudar de intensidade.
O farol - tão procurado na noite anterior, para a aproximação - simplesmente não acende. O painel solar que alimenta suas baterias transformou-se num atraente poleiro e, em pouco tempo, acabou coberto de guano (esterco) e com a luz solar bloqueada.
De manhã, as ilhotas são percorridas ainda uma vez mais, com a promessa íntima de voltar um dia, quem sabe com mais tempo O vento soprava forte e o Iemanjá levantou âncoras, zarpando em direção a Fortaleza, no Ceará. Rápido demais, o Atol das Rocas foi desaparecendo atrás da esteira do barco, quase uma miragem transformada em espuma.